Quarta-feira, 9 de Junho de 2010

No abraço de dois rios... o poeta, as musas e a poesia

Constância, 10 de Junho de 2010

 

 

(Não sei como tratar-te. Nem sei se o carinho com que te acolhemos na alma e no orgulho de "ser português", me dá o direito de te tratar assim. Talvez devesse dizer "vossa mercê", ou algo do género. Mas os nosso tempos são outros... "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...não se muda já se como soía". Por isso...)

 

Ao meu poeta, ao nosso poeta, ao poeta de todas as nações, ao poeta de todos os tempos, ao poeta do Amor

 

 

Lembro-me do tempo em que uma pequena casa em ruínas, sobranceira ao Tejo, quase no abraço dos rios, desmoronava lentamente. Diziam (dizem os antigos, uma lenda, ou talvez não, uma tradição passada de boca em boca) que foi nesta casa que tu encontraste abrigo quando vieste desterrado (?) para Constância. Outrora, a Vila_Poema tinha outro nome, mas já assim era. Um poema, um hino de beleza à beleza pura e simpes das aldeias portuguesas. Encastrada na encosta,  a vila subia pouco a pouco. Tempos depois a imponência da Igreja viria a dominar a paisagem como sentinela atenta das águas, como apelo ao olhar do povo para as "coisas do alto". Mais tarde, nascia a devoção à Senhora da Boa Viagem.

Esta é parte da Constância de que eu me lembro e da Vila que deves ter conhecido, ou antevido no teu olhar de poeta. Um poema para quem a vida se escrevia na música de uns versos.

 

Mais tarde, a tua casa viria a dar lugar ao que é o centro Europeu de Estudo Camonianos. Não, não te vou falar sobre a casa. Nem sobre o teu Jardim. Aí, à entrada se encontra uma escultura em bronze que tenta ser fiel aos traços do teu traço de artista. De homem galã e feições vincadas.

 

Muitas vezes evoca-se o teu nome. A propósito de tudo. A propósito de nada. Entrou na nossa vida como entrou na vida de milhares ou milhões de pessoas. Mas nós sentimo-nos diferentes de todos os outros. Nós sentimos-te nosso. Tu pertences a Constância e Constância partilha-te com o mundo.

Quando em manhãs de nevoeiro as águas  se turvavam aos olhos de quem vivia com os pés no lodo da margem, tu falasses com as ninfas. Talvez, ocultas pela bruma as Tágides te respondessem. Talvez namorassem. Talvez as tivesses encantado com o teu coração inflamado de poeta e o arrojo dos versos nos teus lábios. Enamoraram-se de ti, certamente. E tu, Luis, o homem-poeta, o poeta-perdido se tenha enamorado das ninfas. De todas elas, sobressaem as Pomonas. Quando a Primavera amadurece e as flores e os frutos abundam por estes campos...Sem dúvida que era o tempo propício ao Amor. Ou quando o sol declinava no horizonte, encurtando os dias dourados de Outono, quando as trevas ganhavam na corrida dos dias, tu agarrasses na pena e, sentado numa rocha do rio, divagasses o olhar sobre a água e escrevesses versos soltos a Constância.

Imagino-te muitas vezes passeando pelas ruelas estreitas, mas imagno-te muito mais, sentado, sentado naquela pedra do rio. Pouco longe do pequeno casebre onde moravas, buscando a comprensão desses seres mágicos que contigo habitavam o rio e a poesia.

Sou uma mulher do SEC XX. Agora, que se marca a diferença, sublinhando ainda mais o efémero que é a vida, a brevidade do tempo e a mudança em cada vez menos tempo, diz-se Sex XXI. Eu, por mim prefiro dizer do Sec XX. Gosto da ilusão de ter tempo. Tempo para ter tempo de pensar e tempo de me sentar numa pedra do rio (parecida com a tua, ou quem sabe, a mesma pedra). Perder-me olhando as águas. Olhos postos no alto campanário da Igreja, pensar na beleza da Vila que foi a tua casa e é a morada definitiva de uma outrs "musa" que repousa lá em cima.

Gosto de ti, poeta-amigo. Soubeste como ninguém usar a linguagem da alma na linguagem limitada dos lábios.

 

Se nos tivessemos conhecidos teríamos sido amigos. Somos os dois desterrados. E Constância continua a ser acolhimento para quem a vida é escrita com as mesmas letras de todas as letras, porém com diferentes páginas de alma. Por isso, sendo iguais, as letras de vida nunca serão repetidas. Mas nesse grito de mestria, de grandeza e de orgulho, de dor e de paixão, de amor e de saudade, tu foste único. A maior alma de poeta.

Obrigada, meu querido porque, através de ti eu amo, eu sofro, eu choro, eu engradeço-me, eu rio...

Alma minha gentil, que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algu~a cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

                        Luís de Camões


Desabafos de alemvirtual às 23:05
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Sábado, 5 de Junho de 2010

Minha casa chamada Terra

 

Sei de um lugar assim,

com pingos de ternura no jardim,

com raios de luz em frestas no telhado

com música nas folhas da árvore do quintal.

 

Sei de um lugar assim,

em tom de verde que morre no abraço,

em azul na tinta com que faço

um mar em sonhos mergulhado.

 

 

Sei de um lugar assim,

de branco matizado na encosta,

de neve tingido lá no cume,

de fogo em deserto, a areia como lume.

 

Sei de um lugar assim,

perdido em recantos pelas serras,

achado em vales férteis de quimeras,

minha casa, um lugar chamado Terra.

 

Sei de um lugar assim...

 

Ana Paula Pinto


Desabafos de alemvirtual às 22:03
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